domingo, 11 de outubro de 2009

Abismo


Eu sei mais da tua humanidade do que você mesmo pensa.
Eu sei que você é humano; eu sei que você, como eu, se entrega quando não há mais jeito e o abismo se abre convidativo, com aquela voz que sussurra: Se joga! Cai! Vem!
Ah! você pensa que eu não sei, quando você se traduz assim pra mim? Eu sei.
É que mais me vale fazer uma piada suja do que dizer a você que eu conheço muitos caminhos e não posso te mostrar nenhum. Que eu podia dizer milhares de coisas mais não fariam sentido algum.
As vezes a acidez é muito mais segura e você sabe disso.
Milhares de vezes mais que a entrega que a gente faz quando não resiste mais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Á luta feroz


Eu não sei de onde me vem a noção de família. Eu nunca vivi isso.
Para mim família é um bando de gente que se apoia.
Que sabe dos teus defeitos e te defende, mesmo não gostando do que você faz, gosta de você e demonstra isso.
Que fala na tua cara o que pensa sobre você e sobre o que você faz, mas não te emperra, não te amarra e se você escorregar e cair, ainda te ajuda a levantar.
Que se junta no enterro e na festa e ri e chora, nos dois. Mas, que não invade privacidades, nem vasculha segredos.
Que defende namoros, "corta-jaca", faz feitiços e filtros de amor, mas que te consola na dor de cotovelo ou no coração partido. E pelo mesmo sistema afasta pessoas ruins do teu convívio, se essa for a sua vontade. Ou aguenta o "chato" pelo mesmo motivo, com um sorriso e um prato de lasanha no almoço.
Que bebe junta e suporta a "cana" e a ressaca, e não critica depois. Mas, empurra o alcóolatra para o AA, mesmo que seja à força.
Que se protege, mas abre as portas para os que não tem família se abriguem no calor incomparável do amor fraterno.

Nunca vivi isso, nunca tive nada parecido, mas acredito nisso como na minha mão escrevendo esse texto. E tento bravamente que minha filha acredite nisso, embora não tenha parentes que lhe deixar. Mas, tenho fé que um dia ela componha a sua própria família e que seu marido tenha os irmãos e as irmãs que não pude lhe dar. Aposto diariamente todas as minhas fichas, mesmo sabendo que a vida não dá senão o que ela deseja, a quem deseja e se quiser.
Minha tristeza, dessa orfandade de pais vivos, que tenho vivido já a tanto tempo...essa minha solidão de irmãos consanguíneos, só é compensada por que tenho tido a humildade de encontrar mães nas pessoas mais estranhas e pais nos livros, irmãos em amigos e estranhos. Tenho me dado à vida, para que ela possa me retribuir, mesmo um pouquinho.
Considero família a coisa mais importante do mundo, mesmo que ela seja, na pior das hipóteses, você, seu gato e seu cachorro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Preciso Aprender a Ser Só

Elis Regina

Composição: Marcos Valle/Paulo Sergio Valle

Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
E sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
E ver que foi só um sonho e passou

Ah, o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem
É tão triste, vê
Meus olhos choram a falta dos teus
Esses olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Por Deus entenda que assim eu não vivo Eu morro pensando no nosso amor Ah o amor Quando é demais ao findar leva a paz Me entreguei sem pensar Que a saudade existe e se vem É tão triste, vê Meus olhos choram a falta dos teus Esses olhos que foram tão meus Por Deus entenda que assim eu não vivo Eu morro pensando no nosso amor

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A insuportável vida sem o Lex

Se eu for tomar Lexotan como eu gostaria, tava ferrada eu e o Papa.
Receitado pelo médico, por que eu não sou doida de me auto medicar, de cajú em cajú eu tomo um Lex. Só quando fico agressiva. Só quando estou em tempo de morder alguém na jugular. Fora isto, apenas meditação.
Já tomei uma porrada de remédios quando estava tão deprimida que morrer era lindo. Mas, consegui controlar isso. Com meditação e, sobretudo, com um sentimento de "demência" diante das coisas fatais.
Minha melhor frase é: Isso é assim mesmo.
Pronto! É assim mesmo e breu. Não tem o que fazer? Tá feito.
Mas, há dias - ai de mim! - em que a vida seria insuportável sem o Lex.
Dias em que nem o mergulho no mais profundo do meu inconsciente poderia me salvar do desespero, nem se o próprio Buda descesse.
Não recomendo a ninguém refugiar-se no mundo tranquilo do Lex, mas recomendo que fale com seu médico e diga a ele que mesmo Pollyana teve seus dias mais sombrios.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Eu não sou quem você pensa.


Eu sou uma pessoa. Tenho defeitos, ilusões e gostos. Tenho desgostos também. Não creio em anjos. Faço apologia de mim mesma, me exponho. Me coloco à força na vida das pessoas, saio da vida das pessoas de forma tão sutil que me acreditam invisível. A voz de Zé Ramalho me comove. Eu me comovo com qualquer beleza crua. Eu me prendo a detalhes mínimos. Eu deixo passar o boi e a boiada, deixo que as jangadas partam para o mar sem fim. Eu abro essa janela para o infinito e não me debruço nela, é só porque eu deteeeeeesto janelas fechadas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Como gastar pólvora com o cartucho alheio


Quanto mais eu vivo, menos me surpreendo com as pessoas.
Cada um que abra a sua boca e clame a Deus prêmios de que se acha merecedor; que rogue contra a injustiça; que se reconheça grande; que se ache bom! Ou ao contrário, se ache ruim, com a desculpa de que é humano e os humanos são maus.
Pior do que estes é o que faz o bem com moderação, com medo das consequências do bem.
Por que o bem tem consequências.
Você escapa das consequências do mal, se não o praticar, mas não há como o bem para se ramificar, se espalhar...quem faz o bem, sempre é incomodado para tornar a praticá-lo outra vez, e mais uma vez e mais uma.
É uma mera questão econômica! Aliás, é uma questão de se economizar...quem faz o mal se embriaga, mas se cura, normalmente...mas, quem faz o bem - seja em que modalidade - entra numa tal vertigem de visão das circunstâncias que rapidamente se recolhe à própria insignificância.
A visão mais perturbadora é a do sorriso de alegria, de alívio ou de gratidão do beneficiado. Isuportável para alguns, o rosto do beneficiado se ilumina, uma luz que vem direto de Deus, eu acho. Nem todo mundo suporta essa luz. Por esse motivo se negam.
É muito para alguns.
Outra, fazer o bem nos coloca na prespectiva ótica da nossa própria insignificância.
Quem somos nós afinal?
Que importância temos, mesmo quando ocupamos posições de conforto e destaque na sociedade humana?
A verdade é que somos, materialmente, nada. Perecíveis como qualquer yorgute. Perecíveis como "presunto" que somos (independente de sermos light). Materialmente somos pouco mais que uma mortadela.
(O Rex gargalha e diz que eu não me emendo... Não mesmo, dinossauro!)
Fazer o bem, praticar a caridade, tentar mudar a realidade (dura e pesada) de uma só pessoa, nos dá a real dimensão disso. Reconhecer que o outro sofre de uma necessidade,nos faz ver que muitos mais sofrem e que nós também sofremos dessas necessidades e que talvez a nossa não seja atendida, por inúmeros motivos (é subjetiva, depende só de nós, é fictícia - o pior tipo ).
Não, não, não! Não gostamos disso!
Somos ricos, lindos, bonitos e joiados! Nosso mundo é perfeito! Nossa dor é maior que as meras dores dos outros! Nosso problema é maior!
Como gastar, então, pólvora com o cartucho alheio?
Vamos rezar por nós mesmos, não pelos outros.
Vamos guardar nossa solidariedade como bem pessoal e intrasferível.
Vamos nos apossar da verdade e da razão.
Vamos, em silêncio, verificar, avaliar, julgar e condenar a falta alheia.
Vamos mostrar nossa face Super...
"Enquanto isso, na sala da justiça..." quem quiser que se arrombe, por que não estamos nem ai!

E dessas coisa, rio eu, junto com o Rex, enquanto nos embriagamos de sol.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O trabalho da noite


A noite vestiu-se de estrelas. Estava contente, conseguira, com algum esforço, remendar outra vez aquele vestido de festa, tantas vezes usado e por isso mesmo absolutamente roto. Havia ocasiões que se vestia de cinza, quando recebia a visita da chuva. Mas, hoje deixou a lua apagadinha, só estrelinhas no seu velho vestido.
Dava pra enganar, principalmente sob as luzes da cidade, que cega os homens que a noite quer impressionar.
A ronda noturna tinha que começar.
Apressada, vestida ainda em seu robe azul claro, a noite esperava impaciente que o sol finalmente terminasse aquele tedioso espetáculo com que se despedia todos os dias. Ai, as pessoas repetitivas! Tão cansativas.
Quando o velho "astro-rei", o decadente Elvis celestial, foi se fazer travestí para o espetáculo (tedioso) da Aurora, do outro lado do mundo, a noite finalmente vestiu sua capa e foi à ronda.
Primeiro foi colher as esperanças das namoradas esquecidas, suas lágrimas de frustração, suas maldições ditas entre-dentes. Depois para as esposas atarefadas, cansadas de esperar atenção e emoção. A noite recolheu seus pensamentos dispersos.
A noite correu à casa dos velhos e recolheu suas dores reumáticas e suas lembranças falsas dos tempos de imaginada glória. Nos hospitais, a noite foi buscar a desesperança e a alegria, nas uti’s e salas de parto. Estas eram as estações que a noite mais gostava.
As rodoviárias e aeroportos eram tão fugazes! Partidas dali e daquizinho, tudo tão pertinho, o fio que produziam era tão fininho! Nos hospitais não, o fio era forte e bem igual, estações definitivas de chegada e partida, de bem-vindo e nunca-mais.
O desespero das mães que não sabem onde estão os filhos, as dores de dente, as febres malsãs.
A noite foi aos bares e cabarés, recolher as risadas tristes das prostitutas que têm a obrigação de serem alegres e dos freqüentadores que gargalham para ter como esconder a dor que lhes rasga o peito. Fosse sexta-feira, dia das amantes, ela recolheria a esperança das que querem ser esposas, mas sabem que não serão.
Madrugadinha, lá vem o velho travesti. O espetáculo da Aurora não tardaria e a noite ainda tinha muito o que fazer com os fios recolhidos na ronda; os fios que recolheu lhe dariam o mesmo trabalho que lhe dão a séculos, desde que o Bom Deus resolveu separá-la do dia; muito embora a noite reconheça que os fios que recolhe hoje são mais variados que os de antigamente, e o tecido que tece para vestir a vida – essa patroa exigente – fica cada dia mais tingido de sangue, suor e lágrimas.
Esse é o trabalho da noite, ser tecelã da vida que se vive.